
Alfabetizar os sentidos para um mundo em transição
O livro Alfabetizar os sentidos para um mundo em transição nasceu por conexões de proximidade e acasos. Resultado de reflexões do grupo de estudos Ciências, Literatura e Artes, junto ao grupo de pesquisa Artes Tecnológicas Aplicadas à Educação (CNPq-UNINOVE), ambos coordenados por Márcia Fusaro, esta coletânea é uma ação criativa amparada por leituras e diálogos transdisciplinares desses grupos de pesquisa ao longo dos anos.
A proposta desta coletânea, conforme o próprio título anuncia, é alfabetizar os sentidos para um mundo em transição. Alfabetizar em sentido freiriano, considerando-se, portanto, o repertório de vivências e memórias que todos carregamos, mas também levando-se em conta nossa condição de seres inacabados, em constante transformação. O livro é composto por variados tipos de expressão textual, dos mais acadêmicos aos mais livres, organizados em conexões de proximidade e acaso.
Foi esta nossa escolha desde o início da proposta, por considerarmos a inclusão da liberdade criativa textual como um dos componentes relevantes à própria alfabetização dos sentidos. Nesse sentido, dá-se o alto grau ensaístico a perpassar todos os textos. Em termos conceituais e práticos, o ensaio tem sido uma referência de escrita textual trabalhada por nós ao longo dos anos. Ao permitir aproximações entre literatura e ciência, em perspectivas metodológicas criativas, mas que não abrem mão dos índices acadêmicos, a escrita ensaística tem sido trabalhada por nós como alfabetizadora dos sentidos, sobretudo acadêmicos. Assim se compõe, portanto, o pensamento arquipélago desta coletânea, para lembrar Glissant, afirmando uma diversidade que não busca necessariamente ser unidade, mas, tampouco, desconsidera as identidades. Rizomas traçam (des)caminhos ao longo dos textos.
O livro é uma tentativa de resposta não definitiva, mas, sobretudo, reflexiva e sensível, às preocupações que angustiam muitos de nós, atualmente, em relação ao nosso planeta. Alfabetizar os sentidos se faz urgente para nos (re)conectarmos com mais lucidez ao nosso mundo em vertiginosa transição. Principalmente para ações criativas cotidianas que nem todos conseguem perceber, assoberbados que estamos, tantas vezes, com a justa busca pela sobrevivência. Mas será isso suficiente? Sobreviver é suficiente? E quanto a VIVER? Onde e até que ponto nossa VIDA tem sido capturada?
Sem dúvida, uma intersecção faz tremer todos os fios deste livro-rizoma de proximidades e acasos: poesia de VIDA. Individual e coletiva, com suas implicações e desdobramentos em termos de uma ética e estética planetárias. É pela poesia de VIDA que partimos do barro, constituinte primitivo da terra, no primeiro ensaio da coletânea. Barro moldado por mãos que lhe dão forma enquanto o leem em estado de poesia. Passamos por definições poéticas epistolares, seguidas por reencontros com a poética do barro, em meio à evocação profunda da espiritualidade dos povos originários, antes de um mergulho poético-reflexivo sobre a Natureza em vários estágios possíveis.
Que este livro-rizoma em conexões de proximidade e acaso, para voltar a Glissant, nos lembre da relevância profunda, espiritual, de alfabetizarmos nossos sentidos para (re)conexões com nosso planeta em transição. Precisamos de utopia para resistir à distopia que insiste em nos assombrar. Utopia acompanhada de ética e estética cósmicas voltadas à ação. Alfabetizar os sentidos de modo a perceber a mudança, não como algo absoluto, punitivo, imposto a nós mesmos e aos outros, mas como possibilidade de transformação enquanto interagimos entre nós, em sentidos cada vez mais coletivos, sem com isso abrir mãos de nossas identidades. Glissant nos lembra ser esta a única forma de se colocar contra o holocausto, a destruição, a opressão, a dominação e o imperialismo. Lembra-nos, ainda, de que somos capazes de apreender a utopia como uma necessidade infindável, pois quando tal necessidade é infindável, deixa de ser uma necessidade que corrompe e oprime para se transformar em urgência que liberta. A essa utopia, acrescento a poesia de VIDA, em maiúsculas e em sentido imanente, conforme anunciou Deleuze. Poesia de VIDA como uma necessidade igualmente infinita, libertadora e alfabetizadora de sentidos para esse nosso mundo em transição.
Márcia Fusaro
ÍNDICE:
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Apresentação (Márcia Fusaro)
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Nós-linhas, teias? (Renatha Dumont)
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Signos em busca de sentidos epistolares (Ana Maria Haddad Baptista)
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Carta ao leitor de um mundo em transição(Rosemeire Flores da Silva Freire)
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Primavera brasileira: história, arte e educação como incubação de futuro (Lucia Barbosa)
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Humano-natureza (Rachel Castanheira)
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Viver o verde: por uma alfabetização e um letramento ecofósicos (Janaina Campos Peres)
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Ler é resistir (Daisy Alves de Souza Lopes)
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Sonoridade do silêncio (Alessandra Aparecida Dias)
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Estilhaços temporais: ser ou conectar? Eis a nova questão - Uma reflexão sobre o tempo tecnológico (Eva Lopes)
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Marina Aline de Brito SenaÉ isto um fim? (Marcelo Veronesi Fukuda)
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O fim do mundo como o conhecemos: arte e resistência em tempos de crise (Hadassa Viviane Rodrigues)
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Formação de professores/as por uma vida não-fascista (Felipe Nunes Quaresma)
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A criação como potencialidade para sobreviver à tirania (Monica Soares da Silva)
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A escuta como referencial (Raquel Furgeri de Oliveira)
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Quando a Física (se) faz senti(n)do (Carlos Magno Sampaio)
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Etnomatemática alfabetizando sentidos (Eduardo Reis de Souza)
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A fúria dos sentidos e o protagonismo estudantil: alfabetização visual como ato de resistência (Edirlane Aparecida de Lana)
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Às almas anêmicas (Ana Maria Dessimoni Felipe)
Márcia Fusaro é Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), com pós-doutorado em Artes (UNESP). Mestra em História da Ciência (PUC-SP). Especialista em Língua, Literatura e Semiótica (USJT). Professora dos Programas de Pós-graduação stricto sensu em Educação (PPGE) e Gestão e Práticas Educacionais (PROGEPE) da Universidade Nove de Julho (UNINOVE). Líder do grupo de pesquisa Artes Tecnológicas Aplicadas à Educação (CNPq-UNINOVE) com atuação em rede junto aos grupos de pesquisa Performatividades e Pedagogias (CNPq-UNESP) e Coletivo de Estudos Poéticas do Aprender (CNPq-UFRN).
INFORMAÇÕES TÉCNICAS
183 páginas
16 x 23 cm
ISBN: 978-65-987857-0-3
Ano de publicação: 2025

Arte: Renatha Dumont
