
Arte e Ciência em Marco Lucchesi
Perspectivas transdisciplinares
Judite Zamith-Cruz
Portugal

A memória tem meandros inusitados e construções estranhas, como observado em 1911. O neurologista Édouard Claparède mostraria então já que a lembrança é sobre um tipo de memória. Os modelos de memória foram sistematizados por Endel Tulving, de acordo com categorias: memória semântica (para conhecimentos gerais), episódica (para experiências pessoais) e procedimental (para estratégias específicas). Noutra codificação posterior, a memória implícita evidencia uma mudança de conduta na performance, sem recordação do estímulo, além da memória explícita, com memória consciente do estímulo original. Sem transmitirem informação, existem contistas compulsivos com a Síndrome de Williams e pessoas confabulam histórias fantásticas do que nunca ocorreu.
Comumente nem sabemos o que aprendemos, por desconexão entre a memória de eventos ou episódica e a memória verbal, semântica (“amnésia da fonte”). Temos memórias reprimidas e, alguns de nós, flashbulb memories. Ainda que uma pessoa possa relatar uma recordação falsa (sem ser “mentirosa”), uma outra nunca saberá se aquela recordação é real, artificial ou ficcional. Não somos independentes do real, quando construímos o futuro como possibilidade da memória prospetiva, ainda com o passado de Marco Lucchesi, em O dom do crime e em Adeus, Pirandello.
Marco Lucchesi escreve o texto controlado, vertido da história mínima, de forma iminentemente construtiva e ativa para o futuro, a ponto de gerir a nossa “distração”, mas a partir duma atenção desfocada nas suas obras e a partir de dentro de dentro de nós mesmo. Ulisses e Pirandello, protagonistas centrais, abanam-nos pelo recurso a um deslocador demoníaco da mente comum ou “eu” (self). O que lemos são imagens orgânicas ou ocultas, cuja análise narrativa possibilita trazer inolvidáveis explicitações.
Numa primeira parte, desenvolvo abordagens à memória humana em contraste com a Inteligência Artificial, antes de traçar o sentido da análise narrativa, na teoria e no método para uma hermenêutica existencial, em que O dom do crime e Adeus, Pirandello, de Marco Lucchesi, criam possibilidades de leitura para a arte e a ciência unificadas, com relevo no “destino” e na literatura do autor.
O capítulo “Adeus Pirandello” conjuga o questionamento da teia de enredos. A complexidade de O dom do crime alcança a ideia remota de imaginar ser viver, antes de manifesto no poder da dialética multiplicada nas formas polimorfas de ler nos seus livros meta-mundos. Num mundo de imaginação, chegados ao topo de obras de Lucchesi, fontes inesgotáveis dos seus conhecimentos se fazem grãos para refeições hermenêuticas, metáfora do que são as coisas que se aprendam e se contrastem. Num método de comparação constante, a literatura de Marco Lucchesi desdobra os detalhes para cores incomensuráveis.
Judite Zamith-Cruz
ÍNDICE
I. MEMÓRIA
Atletas da memória
Inteligência e memória naturais e inteligência artificial
Neurociência da memória
II. TEORIAS E MÉTODOS DE ANÁLISE NARRATIVA
III. ARTE E CIÊNCIA
IV. DESTINO
V. LITERATURA
VI. ADEUS, PIRANDELLO
VII. OS FIOS DE UMA TEIA
Do demónio e dos pandemónios
VIII. O DOM DO CRIME
Figuras lacunares em contexto vago
IX. IMAGINAR E VIVER
Memórias recreativas de imaginações
Da “luta entre o bem e o mal” ao cenário de um hediondo crime
Como foi assassinada Helena?
Não-verdades e a especulação
O quotidiano no além
Mapeamento de territórios do Rio de Janeiro oitocentista
X. ESPIRAL DE VÁRIAS DIALÉTICAS

