top of page
E eu não sou uma criança?

O título deste livro parafraseia o discurso que Sojourner Truth (1797-1883) fez em 1851, intitulado “Eu não sou uma mulher?” (Ain't I a woman?)

E EU, NÃO SOU UMA CRIANÇA?

Formação continuada e identidade da criança negra na educação infantil

Rita Marques

Sou uma mulher preta. Muitas vezes, atribui certas dificuldades ao fato de possuir tais traços fenotípicos. Já senti pena de mim mesma, mas, com o passar do tempo, entendi que as conquistas da vida dependiam da minha vontade de ser, fazer e lutar pelas coisas. A partir de então, parei de me lamentar e comecei a buscar a realização do que eu realmente desejava. E continuo lutando pelo que ainda almejo conquistar.

No Brasil, as práticas de racismo são ocultadas pela falsa ideia de sua inexistência, a negação de que seja um problema real, perene e atual. Segundo Cavalleiro, “a não-percepção do racismo por parte das crianças também está ligada à estratégia da democracia racial brasileira, que nega a existência do problema”.

O racismo atua e se perpetua de forma tão velada que nós passamos por situações racistas quase que o tempo todo, muitas vezes sem nos dar conta. No contexto de uma sociedade estruturalmente racista, só vim a entender que ser negra tem muita relevância nas relações humanas e sociais quando me tornei mãe. A maternidade acendeu em mim uma espécie de “luzinha”, e me questionei: e agora, Rita?

Tendo sob minha responsabilidade duas meninas negras – tal como eu, tal como a mãe delas – perguntava-me: será que elas irão passar pelas mesmas coisas que eu, sem reagir? Como vou ensiná-las a serem mulheres negras no Brasil sem vergonha de serem quem são, mas com orgulho e altivez? Como posso impedir que experimentem o sentimento de inferiodade que sempre tive, mesmo sendo uma jovem extrovertida, inteligente, bem articulada? Como posso ensiná-las a se autovalorizar, quando vivemos numa sociedade racista que camufla, dissimula e perpetua o racismo, minando o povo negro com a destruição sistemática de sua autoestima, de sua negritude? Como fazer para que aceitem e amem a si mesmas, em vez de se envergonhar por serem negras?

 

Com tantos questionamentos, comecei a me aceitar ao longo do tempo e pude me enxergar como uma mulher negra de qualidades e valores, como sujeito, mãe, ser humano digno como qualquer outro. No entanto, reconhecer-me negra não bastava para que minhas filhas tivessem sua autoestima valorizada. Era preciso aprender a viver em um mundo cuja sociedade humana não é formada só pelo núcleo familiar – pessoas que dispensam amor incondicional, sem discriminar pela cor da pele –, abrangendo também outros grupos – a escola, o parque, shopping-centers, centros culturais, TV. A televisão e outras mídias de comunicação representam armas poderosíssimas na disseminação de ideias (ou preconceitos); são dispositivos formadores de opinião, influenciadores das mentes em formação.

Aos poucos, pude conceber perspectivas diferentes para a vida das minhas filhas, para que se sintam representadas, empoderadas, mulheres pretas que amam sua cor de pele, seus cabelos,  podendo se orgulhar de sua negritude socialmente, sem sentir vergonha ou se constranger ao informarem sua cor em formulários e outros documentos. Uma vez, uma atendente me perguntou que cor deveria colocar na descrição; antes mesmo de eu abrir a boca, minhas filhas se adiantaram: “Somos negras!” Em seguida, porém, a insinuação de serem mais “clarinhas” do que negras, podendo ser consideradas “pardas”.  Minhas filhas não gostaram disso e, quando saímos do posto de atendimento, disseram: “Viu, mãe, a moça querendo colocar nossa cor como parda?” Em seguida me perguntaram: “Que cor é parda?”. Saímos daquela situação rindo muito.

Venho construindo, junto com minhas filhas, nossa identidade de mulheres negras: empoderadas, dignas e respeitáveis, imbuídas de direitos e deveres – nem melhores nem piores do que ninguém. Assim nos construímos e nos descontruímos cotidianamente, com atitudes individuais e coletivas, nos enfrentamentos diários, muitas vezes sem consciência disso, pois essa discussão ainda é velada. Na minha época de estudos, na educação básica, nunca vi a escola tratar de questões étnico-raciais.

Enfim, ser e se reconhecer como uma pessoa negra é um processo que começa desde a infância. Pode ser também uma descoberta repentina, brusca e traumática, ocasionada por uma situação de constrangimento. Também pode ser que essa conscientização se dê só depois de adulto, conforme as circunstâncias e pressões do momento. Uma coisa é certa: quando a identidade negra não se constroi devidamente desde a mais tenra idade, a conscientização do “ser negro” acontece tardiamente, depois que a subjetividade já se cristalizou. Neste caso, normalmente, é um choque que decorre de alguma situação de racismo e/ou discriminação.

O problema real do racismo numa sociedade que perpetua estruturalmente a sua prática, de forma mais ou menos velada, atravessada de silenciamentos e negações, necessita ser compreendido a fundo e, mais do que isso, estar sempre na pauta do dia, nos debates públicos. Preocupada com o racismo estrutural que permeia a nossa sociedade, saí em busca de estudos recentes sobre o racismo nas Unidades Educacionais, principalmente no âmbito da Educação Infantil.

Na busca por explicações sobre questões que envolvem identidade e a pessoa negra, este livro se propõe a analisar como a educação pautada por questões étnico-raciais pode promover a transformação na percepção e na ação de professores da Educação Infantil que atendem crianças de zero a três anos.

Rita Marques

Rita de Cássia Marques é educadora, pesquisadora e professora da infância. Mestre em Educação para as Relações Étnico-Raciais pela PUC-SP e doutoranda em Educação pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE), constrói sua trajetória  acadêmica e profissional a partir do compromisso com uma educação antirracista, ética e sensível às infâncias. Graduada em Pedagogia e História, com pós-graduação em Gênero e Diversidade na Escola (UFABC), Educação a Distância (UAB) e Psicopedagogia (UNIFAHE), atua como professora de Educação Infantil e acumula experiência na gestão pública, tendo exercido a função de coordenadora pedagógica na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Integrou a Divisão  pedagógica da Diretoria Regional de Educação de Itaquera, onde colaborou na formulação de ações voltadas à Educação Infantil e à Educação para as Relações Étnico-Raciais. Seu trabalho se orienta pelo diálogo entre pesquisa, prática pedagógica e escuta das narrativas infantis, buscando afirmar a escola como espaço de cuidado, pertencimento e justiça social.

Compre o ebook na Amazon

Ebooks Kindle da Akhad Editorial
bottom of page