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NOTÍCIAS DA LITERATURA
Artigos e ensaios
Demian Paredes
Argentina

Os mais lúcidos gostariam que todas as tabelas classificatórias, de qualquer área do conhecimento, fossem extintas. Mas, infelizmente, não há como fugir, de forma completa, delas. As tabelas periódicas, assim como as classificações de Lineu, para o bem e para o mal, são necessárias. As áreas, em especial, denominadas científicas, precisam de agrupamentos de tipos e espécies que se justifiquem estar umas ao lado das outras. E, sabe-se, quanto mais plantas, insetos, borboletas, peixes, insetos, flores, surgem, mais as tabelas crescem. Juntam-se. Entrecruzam-se. Miram-se. Desdobram-se. Tangenciam-se. Subdividem-se.

 

Entretanto, em se tratando das áreas artísticas, sem esquecer de que a literatura é uma delas, as classificações, na verdade, não deveriam existir.

Mas, novamente, temos que ter parâmetros básicos para, de alguma forma, dar exemplo de um conto, de um poema, de uma novela, de um quadro, de um romance, de uma poesia. E, inclusive, das especificidades de cada linguagem. Leiamos Sartre: “Pode-se encontrar, sem dúvida, na origem de toda vocação artística, certa escolha indiferenciada que as circunstâncias, a educação e o contato com o mundo só mais tarde irão particularizar. Também não há dúvida de que as artes de uma mesma época se influenciam mutuamente e são condicionadas pelos mesmos fatores sociais”.

 

E na profusão, quase indefinida, das especificidades, convém lembrar que cada linguagem possui suas possibilidades e limitações. Temos que escapar, por exemplo, de certos paralelismos entre as artes. Em especial, de certas comparações pretensamente semióticas que apenas acabam arruinando, ainda mais, os conceitos sobre as artes em geral. Além das formas que as diferenciam, existe a matéria. Uma coisa é trabalhar, como diria Sartre, com sons, cores e outra, com palavras. Nessa medida, fica uma questão: onde se localiza o crítico literário? Como classificá-lo? Os denominados críticos literários, infelizmente, não gozam, na maioria das vezes, de uma fama boa.

 

Com seu sarcasmo habitual, Sartre escreve: “É preciso lembrar que a maioria dos críticos são homens que não tiveram muita sorte na vida e que, quando já estavam à beira do desespero, encontraram um lugarzinho tranquilo como guarda de cemitério. Deus sabe quanto os cemitérios são tranquilos: não existem mais ridentes que uma biblioteca. Os mortos lá estão: nada mais fizeram senão escrever, há muito tempo estão lavados do pecado de viver, e, de resto, só conhecemos suas vidas através de outros livros que outros mortos escreveram a seu respeito”.

 

Prossegue, ironicamente, Sartre: “O crítico vive mal; sua mulher não o aprecia como seria de se desejar, seus filhos são ingratos, os fins de mês são difíceis. Mas ainda pode entrar em sua biblioteca, apanhar um livro na estante e abri-lo. Do livro escapa um leve odor de porão, e tem início então uma estranha operação que ele decidiu chamar de leitura”.

 

Eis uma concepção que, muitas vezes, se tem do crítico literário. Entretanto, existem os críticos literários que fogem completamente às colocações propostas por Sartre. Demian Paredes é um deles. O crítico argentino não é apenas um crítico literário. É, acima de tudo, um grande ensaísta. Leitor ávido e voraz cujo olhar para as obras literárias não buscam somente os autores passados, já exaustivamente analisados, desgastados como franjas empoeiradas. Não. Demian é daqueles que buscam, garimpam, escolhem, farejam, avidamente, literaturas no geral – poesia, novela, ensaios, filosofia – para, desta forma, construir pontes entre autores e leitores.

 

Entre culturas que são diferentes e ao mesmo tempo possuem pontos de universalidade tão imprescindíveis para o restabelecimento de solidariedade efetiva entre os povos. Demian Paredes possui a rara sensibilidade de capturar, com refinamento e lucidez, tipologias textuais singulares. Autênticas. Genuínas. Críticos literários temos aos montes. Em jornais, revistas e tantos outros meios de comunicação que jorram e transbordam ao nosso redor.

 

Uma crítica literária pode ser “classificada” como uma tipologia textual. E como tal poderá ser comum, imersa em mesmices, nadando em clichês e lugares comuns. Mas, para a felicidade geral da humanidade, pode ser rica, misteriosa e tangenciar o literário, especialmente, quando ensaística! Afinal, o que é um ensaio?

 

Leiamos Marco Lucchesi: “O ensaio entendido como Unamuno, o ensaio como ensaio, ‘cujo centro está em toda a parte e a circunferência em parte alguma’, como dizem os místicos, e, portanto, suspenso e incompleto como inscrição. O ensaio é um laboratório que ensaia, justamente, e assume todos os riscos, sem medo de enveredar por um caminho cego ou de andar numa rua de mão única, para citar Benjamin. Considero o ensaio como um sonho de olhos abertos, entre rigor e aventura, como quem sonda e perscruta, no verso e no anverso, um tapete persa, e não se dá por satisfeito com o ponto final, porque tudo, ou quase tudo, desde que se constitua uma linha discursiva, ao mesmo tempo reta e sinuosa, que se oriente na direção de um não saber, no coração do entusiasmo e do princípio da incerteza”.

 

Justamente, os textos de Demian Paredes, caminham com tranquilidade pelas veredas “conceituais” de Marco Lucchesi. Com isso podemos afirmar que se destacam dos textos comuns, muitas vezes, extremamente acadêmicos, que tolhem a liberdade de expressão, a criatividade e um certo grau de poeticidade que os sublimam. O nosso crítico argentino não se destaca somente no ensaístico. É um exímio tradutor, diga-se de passagem. Traduziu O Dom do Crime, de Marco Lucchesi (Buenos Aires, Interzona, 2023).

Neste livro de ensaios devemos destacar a escolha dos autores feita por Demian Paredes, escritores de destaque universal que produziram e produzem uma literatura de reflexão. A julgar pelas análises de um ensaísta como o autor deste livro, somos seduzidos para ler esta ou aquela obra literária que o crítico argentino nos apresenta: Hermann Hesse, Thomas Bernhard, Robert Musil, Paul Celan, entre outros.

 

Os textos de Demian Paredes demonstram o seu domínio de elementos estritamente literários, assim como elementos mais contextuais de história, política, sociologia e outros. Com grande otimismo, podemos afirmar que ele contraria fundamentalmente certa ironia de Sartre quando, amargamente, afirma: “Mas, afinal, a arte de escrever não é protegida pelos decretos imutáveis da Providência; ela é o que os homens dela fazem, eles a escolhem, aos se escolherem. Se a literatura se transformasse em pura propaganda ou em puro divertimento, a sociedade recairia no lamaçal do imediato, isto é, na vida sem memória dos himenópteros e dos gasterópodes. Certamente, nada disso é importante: o mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem”.

Ana Maria Haddad Baptista

DEMIAN PAREDES POR ELE MESMO

Nasci em 1978. Fui criado na província de Buenos Aires por uma família de classe trabalhadora, com estudos e cultura artística e política (daí meu próprio nome, baseado no romance homônimo de Hermann Hesse. Sempre digo que devo agradecer por não ter sido batizado com algum outro título... como Siddartha!). Também morei por sete anos em Jujuy, uma província do norte. Sou um leitor voraz e onívoro. Desde os quatro anos, ininterruptamente, tive vários empregos: por exemplo, fui carteiro, no final da década de 1990 -- e em breve pareceu ter-me tornado semelhante ao sofrido “Henri Chinaski”, alter ego de Charles Bukowski, cujo primeiro romance se intitula, precisamente, Cartero. Estudei Comunicação Social e Literatura. Fui ativista na área dos direitos humanos e da política e, também,  impulsionador da editora do Instituto del Pensamiento Socialista. Atualmente, trabalho como jornalista cultural, ensaísta e crítico. Sou colaborador regular, há mais de cinco anos, dos suplementos dominicais “Radar” e “Radar Libros” do jornal Página/12.

Durante quinze anos, tive uma relação de amizade fraterna, sempre carinhosa, com o escritor e crítico Noé Jitrik (1928-2022). Dessa amizade surgiu o livro que publicamos juntos, Siete miradas. Conversaciones sobre literatura (2018). Ele me proporcionou uma ampla abertura de portas para mundos diversos, uma aprendizagem ao longo da vida, através de histórias e tradições literárias infinitas, de amizades e conexões com vastos mundos da literatura e da ciência, desde a nossa tradição nacional, até vários países da América Latina, especialmente o México. Estamos falando de alguém em quem as poesias, os ensaios e narrativas, a teoria literária e os textos jornalísticos se desenvolveram durante sete décadas, em mais de 100 títulos. No ano pasado, trabalhei com os seus arquivos: juntos, preparamos alguns livros que permaneceram inéditos, mas prontos para publicação. Além disso, participei do volume coletivo (12º e último) da Historia crítica de la literatura argentina (2018), dirigido por Jorge Monteleone, focado no tema da última ditadura ocorrida em nosso país.

Arrisco-me a dizer que sou, apenas através da leitura, um estudioso da literatura, que, na sua condição de “independente”, pode colaborar, participar e associar-se livremente com diversas instituições, grupos e editoras, para todo tipo de projeto cultural, artístico e literário; e que trabalha, em regime ad hoc, no que pareça importante e digno, de valor.

Publico em várias revistas, como Zama e Hispamérica. Compilei e prefaciei Canton lleno (2019) e Canton lleno II (2022), volumes dedicados ao poeta Darío Canton. Editei Sólo lo fugitivo permanece (2022), livro de contos da grande dama das letras mexicanas, Margo Glantz, e compilei e prefaciei Al margen de la noche. Antologia (2023), do poeta argentino Esteban Moore. No blog deste último (alpialdelapalabra.blogspot.com) venho publicando, sob o título “Brasil poesia contemporânea”, quase meia centena de autores e autoras. Pequenas “amostras de poesia”, com a esperança e na intenção de que possam ser transformadas em futuras publicações impressas, sejam elas antologias coletivas ou obras de um determinado autor. E está prestes a ser publicada La generación que despreció a sus viejos, de Ricardo Lísias, uma tradução que fiz da coleção de poemas, tão inventivos quanto combativos, escritos por esse narrador a propósito da dupla catástrofe: Bolsonaro e Covid-19.

Como disse Italo Calvino numa carta, preocupo-me mais – e com muito gosto – com os livros dos outros do que com os meus próprios. Para terminar, escrevi Léxico Laiseca. Comentarios bio-bibliográficos (y otros delirios), dedicado ao autor do mais longo romance da literatura argentina (Los sorias, com mais de 1300 páginas) e criador do género chamado “realismo delirante”. Obra em forma de dicionário, entre o rigor crítico e a ludicidade, recebeu o Primeiro Prémio de Ensaio 2022 do Fundo Nacional das Artes. 

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